Um homem franzino circula despercebido pelo Largo do Machado, olhos fixos na movimentação das ruas, submetido ao calor vespertino que prenuncia a primavera distante ainda alguns dias. Vestido a rigor, desde as polainas brancas que ressaltam os sapatos pretos em combinação com o terno da mesma cor, ele ajeita a gravata negra para aliviar a pressão sobre o pescoço. Liberta o primeiro botão da camisa e respira fundo. FÓlego subitamente recuperado, apalpa no bolso direito do paletó o papel amassado em que descreve a quem interessar possa o ato ainda por fazer. Certifica-se de que tem, junto à cintura, ajustado pelo cinto de couro, o punhal adquirido de segunda mão dias antes.
Um automóvel preto chama a atenção dos transeuntes. Como os demais, o homem segue o veĆculo com o olhar atĆ© vĆŖ-lo estacionar frente ao luxuoso Hotel dos Estrangeiros. Apressa o passo, aproxima-se a tempo de ver o passageiro que desce do veĆculo e certificar-se de que Ć© quem imagina: um homem de corpo atlĆ©tico, cabeleira farta mesmo para quem jĆ” avanƧa dos 60 anos. O motorista afasta o carro, lentamente, abrindo espaƧo para outros e para as diligĆŖncias e carruagens que tambĆ©m chegam ao hotel.
Os poucos metros que separam os dois homens não chamam a atenção dos demais presentes ao saguão. Acostumados à circulação de pessoas pelo estabelecimento, os funcionÔrios da portaria e do balcão ignoram o desconhecido, porque têm sua atenção voltada para o outro, cuja imagem é pública, conhecida e polêmica. Entre o estranho e a autoridade dois outros homens surgem, dirigindo-se ao segundo com intimidade:
– Senador Pinheiro Machado! O que o traz aqui? – diz o primeiro, o deputado federal JosĆ© Cardoso de Almeida.
– Por certo nĆ£o se trata da eleição desta tarde – diz o outro, o tambĆ©m deputado Antonio Manoel Bueno de Andrade, referindo-se Ć confirmação do ex-presidente Hermes da Fonseca para uma vaga ao Senado pelo Rio Grande do Sul – pois pelo que sei, a votação ficou para amanhĆ£.
– Caros deputados, vim trocar umas ideias com o presidente paulista Albuquerque Lins – responde o senador JosĆ© Gomes Pinheiro Machado, fundador e agora presidente do Partido Republicano Conservador, vice-presidente do Senado e – nessa condição – Ć”rbitro das eleiƧƵes em todo o PaĆs.
Os três parlamentares dirigem-se à escada interna do Hotel dos Estrangeiros, circulando em fila entre as luxuosas dependências em direção à sala indicada pelos funcionÔrios para o encontro pretendido.
Postado atrĆ”s dos colegas, destacando sua estatura privilegiada, o senador sente um forte impacto Ć s costas, seguido de uma dor profunda que intimida seus passos e lhe restringe a respiração. Por instinto e com esforƧo, volta o olhar para trĆ”s e percebe o homem franzino, lĆvido, ostentando na mĆ£o direita o punhal jĆ” ensanguentado com que acabara de agredi-lo.
– Canalha! – reage o senador, com o pouco de forƧas que lhe restam.
Só então seus dois acompanhantes percebem a gravidade do que acontece ao seu redor. Bueno de Andrade tenta amparar o senador. Cardoso, o porteiro Guilherme Neuman e o telefonista Diamantino Rodrigues da Paz correm em perseguição ao agressor, primeiro dentro do próprio hotel, depois pelas ruas do bairro carioca.
– Prendam o bandido! – brada Cardoso de Almeida aos transeuntes que, nas imediaƧƵes da PraƧa JosĆ© de Alencar, observam estupefatos a correria em torno de um homem armado.
No saguĆ£o, Bueno de Andrade tenta descobrir o que aconteceu, falando com Pinheiro Machado, pensando ter sido ele vĆtima apenas de uma agressĆ£o material.
– Como vocĆŖ explica isso? – dirige-se ele para o senador gaĆŗcho, que ensaia dois, trĆŖs passos em sua direção.
– Apunhalaram-me – responde Pinheiro Machado, com dificuldade.
Bueno de Andrade ainda duvida da gravidade da situação, pensando ter havido apenas um soco Ć s costas do vice-presidente do Senado. Mas mesmo sustentado pelo colega, Pinheiro Machado perde o equilĆbrio, obrigando o deputado a amparĆ”-lo pelos braƧos.
O corpo de Pinheiro Machado parece pesar bem mais do que os seus 75 quilos nos três ou quatro passos que os dois, juntos, dão em direção à saleta à esquerda do saguão. Vai desabando lentamente, vencendo o esforço de Bueno de Andrade, sobre um sofÔ.
– Socorro, chamem um mĆ©dico! – apela o deputado.
Um fio de sangue escorre pela boca de Pinheiro Machado que, ofegante, aguarda pela atenção pedida pelo colega. O presidente paulista aproxima-se da cena espantosa.
– Como foi isso, meu bom Bueno?
– Parece que o general estĆ” morrendo.
Dirigem-se os dois para Pinheiro Machado. HÔ muito sangue no rosto, no pescoço e no seu peito, quando chegam os funcionÔrios da Assistência Médica.
– Qual Ć© o estado dele? – questiona o presidente paulista após o primeiro exame.
– EstĆ” morto – responde o assistente, laconicamente, Ć chegada do deputado Cardoso de Almeida.
Acompanhado dos funcionÔrios do hotel com quem iniciara a perseguição, o deputado informa a prisão do criminoso, em flagrante, na esquina da Marquês de Abrantes com a São Salvador, pelos guardas civis Carlos de Oliveira Pimenta e Augusto Sande Ferreira.
– As autoridades apreenderam a arma e impediram que o preso fosse agredido pelos populares e alvejado pelo motorista do senador. Embarcaram em um tĆ”xi com o preso em direção Ć delegacia do Sexto Distrito, onde o delegado Nascimento e Silva fez o ato de flagrante, lavrado pelo escrivĆ£o Bergamini e quebrou a ordem do chefe de PolĆcia Aureliano Leal - de que o mantivessem em total incomunicabilidade – promovendo sua apresentação Ć imprensa, no inĆcio da noite.
SOBRE O AUTOR
Luiz AntÓnio Nikão Duarte (Porto Alegre, 1953) é formado pela PUCRS (graduação/1977, especialização, 1982 e doutorado/2012), ESPM (MBA/2002) e UFRGS (mestrado/2007).
Exerce o Jornalismo desde 1975, com passagens pelos grupos DiÔrioS e Emissoras Associados, Caldas Júnior, Jaime Câmara, RBS, O Estado de S. Paulo, Sistema Jornal do Brasil; pelos Governo Federal e do Rio Grande do Sul; e ainda pelo Congresso Nacional, pela Associação Nacional de Jornais, pela Federação das Indústrias (FIERGS) e pela PUCRS.
Professor (UnB e Uniceub, na década de 1990 e da Unisinos, na atualidade). Participou da antologia Contos de Oficina 21 (Porto Alegre: Edipuc, 1998) e escreveu os livros Redação em RP (São Leopoldo: Unisinos, 2012) e A guerra de Cacimbinhas (Porto Alegre: ComEfeito, 2015).
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